terça-feira, 15 de maio de 2012

A clínica Ampliada

Clínica Ampliada traz um proposta certamente interessante, no entanto, distante da realidade. Pelo menos é a experiência que tenho vivido como psicólogo clínico. É notório a relação que se tem entre médicos e demais profissionais - uma relação de poder, por parte de um; e de dependência por parte de outros. Ainda impera essa relação patologizante entre médicos e outro profissionais de saúde. No que concerne à nossa profissão, essa relação ainda é delicada e pouco verbalizada. Delicada porque, acredita-se que a medicina ainda pode suprir o papel de vários profissionais, e a população (desavisadamente) crê nisto; pouco verbalizada porque, faz-se o insuficiente para minimizar os resultados que, na melhor das hipóteses - não é bom para nenhuma das parte: psicólogos, médicos e a própria população que, por sua vez, abole por não encontrar um "projeto Terapêutico" que lhe atenda clínica, psicológica e socialmente. Tal relação ainda se sustenta, silenciosa e patologicamente. Creio que a escuta na Clínica Ampliada, deve, primeiro cruzar este estigma e por conseguinte seguir no sentido da própria equipe envolvida, objetivando, a descentralização de poderes e saberes. A partir daí, os usuários desta clínica se beneficiarão de uma equipe que será capaz não só de ouvir suas queixa/demandas a que trazem inicialmente, mas perceber o que está por de traz da mesma: se há "conivência, conluio não consciente, falta de preocupação com a própria situação" (Caires,2003, p 167) daquele sujeito. Afinal, ganhos secundários podem existir na relação a que o paciente tanto sustenta. Creio que esta deve ser a direção da escuta: localizar naquele sujeito seu ganho secundário. Mas que essa tarefa não sobresteja no psicólogo, mas tal atitude curse por toda a equipe revogando resistências. É nesta relação que se mostra tripartite (Sujeito – Equipe – Sociedade) que devemos nos ater. É o que observamos no caso abaixo, vivenciado por uma equipe de Saúde da família e pela equipe de Saúde Mental do Centro de Saúde de Paranapanema, do Distrito Sul de Campinas (SP). “muitos profissionais se re-encantaram com a inclusão dos agentes comunitários de saúde, com a reorganização do processo de trabalho e as produções coletivas que puderam ser inventadas”. O Sr. Anésio, de 74 anos, era muito conhecido pela equipe de Saúde da Família. Sempre comparecia à unidade com suas queixas, provocando uma sensação de impotência na equipe: estava medicado com as drogas usualmente prescritas, sua pressão arterial estava controlada, mas o quadro depressivo vinha se mantendo inalterado. A equipe não sabia mais o que fazer. Um dia a equipe resolveu “pôr o caso na roda” e chamou uma psicóloga para apoiar a discussão. O grupo percebeu que o Sr. Anésio demandava atenção frequente e que os medicamentos não estavam dando conta de suas necessidades. Um agente comunitário de saúde lembrou que o Sr. Anésio se sentia muito só. Alguém sugeriu uma visita à casa dele, na expectativa de que este encontro pudesse dar novas pistas ao seu seguimento. Na visita domiciliar, o grupo visitante percebeu que o Sr. Anésio sentia mesmo muita solidão. Descobriu também que ele havia sido marceneiro durante muitos anos e que tinha muita habilidade com a madeira. Quando contava suas histórias, quando mostrava sua obra, seus olhos brilhavam muito. Havia vida latente ali. As pessoas que participaram da visita voltaram com outra visão sobre o “cidadão Anésio”. Chamaram os outros da equipe, a psicóloga da Saúde Mental, e compartilharam o que sentiram. Na conversa, uma possibilidade apareceu: “Estamos num bairro onde há tantos adolescentes vagando por aí sem ocupação, com poucas atividades. Será que o Sr. Anésio toparia ensinar o que sabe a alguns meninos? Será que alguns meninos topariam aprender marcenaria”? O Sr. Anésio topou, alguns meninos toparam e a idéia se concretizou. A varandinha da casa do Sr. Anésio foi transformada numa escola-marcenaria, cheia de barulho e vida. E o Sr. Anésio foi melhorando: as queixas diminuíram, as visitas à unidade básica de saúde já não se repetiam tanto quanto antes. A equipe concluiu com o Sr. Anésio que ele precisava muito de convivência com outras pessoas. Sentir-se útil, produtivo, incluído na sua comunidade, contribuindo com ela de alguma maneira. Ele tinha conseguido ressignificar sua vida naquele momento. Gradativamente, a oficina cresceu: os agentes comunitários de saúde ajudaram a arranjar ferramentas e sucata de madeira. Um usuário doou o maquinário de uma oficina de carpintaria. Em outra reunião da equipe, o caso foi compartilhado e as pessoas perceberam que deviam existir muitos “Anésios” na comunidade. Pessoas solitárias, algumas usando antidepressivos, frequentando bastante a unidade, com muita vida latente e, talvez, saberes que também pudessem ser compartilhados com outros. A partir de então, iniciaram um mapeamento de potencialidades naquele que parecia um território tão-somente problemático. E descobriram muitas,muitas pessoas que sabiam diferentes coisas e tinham o desejo de conviver com outros, de compartilhar seus saberes, de se integrar a diferentes fazeres. E agora, o que fazer? A equipe da unidade básica de saúde conseguiria contribuir nestas articulações com a comunidade? A equipe, com o mapeamento que fez, percebeu muitas potencialidades e resolveu buscar apoios externos à unidade para viabilizar novas ações. Acionaram o Conselho Gestor Local e organizaram várias frentes de trabalho. Foram ao distrito de saúde, ao serviço de Saúde Mental, às escolas,às secretarias de Cultura, de Obras, de Desenvolvimento Social. Visitaram também entidades da comunidade (grupos de jovens, de mulheres, times de futebol, associações de bairro, etc.), sempre buscando estabelecer conexões, ampliar a rede. O esforço foi grande. Foi difícil alugar uma casa para desenvolver uma parte das atividades. Dentro da própria equipe de saúde havia resistências: muitos não compreendiam que a unidade básica de saúde poderia se ocupar de outras ações além das tradicionais consultas, vacinas, curativos, etc. Enfrentados alguns destes problemas, foi possível alugar um espaço e nasceu o Portal das Artes. No espaço, foram organizadas várias atividades: além da marcenaria, vieram cursos de artesanato, de línguas, atividades lúdicas, de relaxamento, musicais, etc. O lugar passou também a servir de ponto de articulação para outras atividades no território, como organização de partidas de futebol. Vários profissionais de saúde das unidades próximas passaram a realizar no Portal das Artes atividades distintas daquelas que faziam no cotidiano da unidade básica de saúde, sentindo mais prazer no seu trabalho. A maioria das atividades era realizada por usuários-professores para usuários-aprendizes. Dessa maneira, o Portal das Artes virou de fato um “portal”, dando passagem a outro modo de olhar e cuidar das pessoas portadoras de sofrimento, apostando na potência de cada um. A iniciativa abriu espaço para que os trabalhadores da saúde pudessem, também, fazer o que gostavam, além de entrar nas relações profissionais de uma maneira mais afetiva.” O sr. Anésio, Sujeito, (S) vivera justamente essa relação tripartite que deveria imperar na Clínica Ampliada (CA). Havia uma demanda que não necessariamente era de cunho psicopatológico ou médico, mas social (S) e intersubjetivo que fora percebido pela Equipe (E). Tal demanda fora transformada numa relação onde todos puderam se beneficiar, quer fosse com os atendimentos clínicos (independentemente do setor a que estivesse ligado), quer fosse com os aspectos sociais a que estavam engajado - a final – com a criação do projeto que envolvia toda a comunidade vários casos foram identificados como os senhores Anésios. Segundo Márcia Vasconcello em seu artigo: A escuta analítica – A diferença entre ouvir e escutar no lembra que Freud, em 1912, escreve o artigo: Recomendações aos Médicos que praticam a Psicanálise. Com este apetece como o próprio nome sugere, fazer determinadas recomendações acerca da técnica da Psicanálise. Nos diz Freud que a técnica da psicanálise é muito simples. "Consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma atenção uniformemente suspensa' (atenção flutuante) em face de tudo o que escuta" (Freud, 1912: p. 125). Ou seja, não é preciso fazer um esforço de atenção e concentração naquilo que se está escutando. "(...) Evitamos um perigo que é inseparável da atenção deliberada. Pois assim que alguém deliberadamente concentra bastante a atenção, começa a selecionar o material que lhe é apresentado" (Freud, 1912: p. 126). Portanto, a seleção de determinado ponto do discurso do paciente é prejudicial à escuta do mesmo, pois que se poderá dar ênfase ou destaque a algo que não necessariamente merecesse receber tal atenção. Não esqueçamos que "(...) o que se escuta, na maioria, são coisas cujo significado só é identificado posteriormente" (Freud, 1912: p. 126). Mas ao colocar em relevo determinado aspecto do discurso do paciente, está-se, inevitavelmente, negligenciando outros pontos que podem ser tão ou mais importantes. “Freud vai além quando afirma que” a escuta "(...) 'Ele deve conter todas as influências conscientes da sua capacidade de prestar atenção e abandonar-se inteiramente à 'memória inconsciente'" (Freud, 1912: p. 126). Desta forma devemos compreender a escuta na CA, não como o rigor freudiano que certamente não haveria espaço e tempo para tal rigor devido à demanda que se apresenta no dia-a-dia. Todavia, parti de tal princípio para que S-E-S possam se relacionar e, com isso, se beneficiar do que há para a melhoria de suas próprias questões. O que sustenta nosso ponto de vista quanto à escuta na CA é a direção que Freud nos dá em Psicologia de Grupo de Análise do Ego dizendo “(...) a Psicologia de grupo interessa-se (...) pelo indivíduo como membro de uma raça, de uma casta, de uma profissão, de uma instituição, ou como parte competente de uma multidão de pessoas que se organizam em grupo, numa ocasião determinada, para um intuito definido” (Freud, 1920, p.82). É o que entendemos que a CA reconhecera no Sr. Anésio (e nos outros anésios espalhado pela comunidade) reconhecendo-o como um Sujeito pertencente a um organização complexa dentro de um grupo possuindo uma identidade (Carpinteiro) da qual ele carregava, mas, era pouco (ou nada) perfilhada/aquilatada. Mas claro podemos conseguir esta escuta somente se formos capazes de segmentar a cultura de que algumas áreas da saúde são melhores que outras ou que são capazes de dar conta da demanda de um sujeito que não, necessariamente, precisa de medicação ou reabilitações técnicas e pouco humanizadas, mas para se ter um sujeito saudável devemos, ante, ter um ambiente sociocultural igualmente profícuo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Freud, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem psicanálise. Das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1996. v. XII, p. 123-133. Freud, S. (1913). Sobre o Início do Tratamento. In: ESB das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1996. v. XII, p. 137-158. Freud, S (1921). Psicologia de Grupo e Análise do Ego. Das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1996. v. XVIII, p 82. Caires, Maria Adelaide de Freitas. Psicologia jurídica: implicações conceituais e aplicações práticas. Editora Vetor. São Paulo, 2003. P, 167. http://www.portaldapsique.com.br/Artigos/Escuta_Analitica_a_diferenca_entre_ouvir_e_escutar.htm link acessado em 15 de maio de 2012.

Um comentário:

  1. Olá, Gabriel. Já estou te seguindo e colocarei seu link no meu blog. Embora aceitando seu convite para conhecer o seu, minha visita tem também o objetivo de responder ao seu novo comentario no meu. Eu me preocuparia mais com o autismo do garoto do que com a microcefalia. Ele pode ter menor compreensão, ser mais lento, ter mais dificuldades. Mas, o que pegará forte é o autismo, principalmente, porque deve ter visto alguem cuspir nos outros e achou bonito ou engraçado. Verifique também os relacionamentos familiares e, se possível, converse com os pais e tente descobrir como e porque esse comportamento apareceu, Abraços Sueli Freitas

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